quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Entrevista com Sandra Mayrink Veiga

Sandra Mayrink Veiga, sobrevivente da ditadura, em entrevista ao Pavio Curto denuncia a impunidade histórica e critica pedido de anistia a Bolsonaro e aliados. ‘Não podemos repetir os erros do passado’


CHEGA DE GOLPES!


Finalmente, na terça-feira, 19, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro e seus comparsas foram denunciados pela Procuradoria Geral da União por tentativa de golpe de estado. As mais de duzentas páginas assinadas por Paulo Gonet apontam com detalhes a trama pretendida pelos militares com anuência e participação direta em várias ocasiões do político que disse ter usado dinheiro público para “comer gente” em Angra dos Reis. 

A peça acusatória descreve em detalhes que a intenção de Bolsonaro e sua trupe golpista era atentar contra a democracia. Não uma, mas em várias oportunidades, inclusive tinham a intenção de matar o presidente da República,  Lula, seu vice, Alckmin, e o então presidente do STF, Alexandre de Moraes. A operação que daria cabo dessa missão digna de um traidor do Estado ganhou a alcunha de Punhal Verde e Amarelo. Não poderia ser outro nome mesmo,  afinal, via de regra, o punhal é usado nas costas, sorrateiramente. Antes mesmo disso, o então presidente se encarregou de minar a credibilidade das instituições, colocando à prova a lisura das urnas eletrônicas que o elegeu e chegou a difamar o país para embaixadores do mundo todo. 

Gonet reforça na denúncia, sem apresentar grandes novidades já que os crimes em questão foram amplamente denunciados pela imprensa e pela sociedade civil organizada, que o ex-capitão e futuro presidiário esteve sempre à frente de tudo. Sabia dos detalhes e assinou e endossou o estratagema. “ Durante as Investigações, foram encontrados manuscritos, arquivos digitais, planilhas e trocas de mensagem reveladores da marcha de ruptura da ordem democrática. (...) O Presidente da República e o seu candidato a Vice-Presidente, o General Braga Neto, ambos aceitaram, estimularam, e realizaram atos tipificados na Legislação penal de atentado contra o bem jurídico da existência independência dos poderes e do Estado de Direito democrático”, confirma o procurador. 

No decorrer da peça, o Procurador Geral da República reforça a gravidade dos crimes afirmando que “não há ofensa institucionalmente mais grave à democracia do que a interrupção do processo mesmo de ajustes inerentes ao sistema, pelo impedimento da atuação de qualquer dos Poderes, sobretudo por meio da força, não autorizada constitucionalmente. A gravidade é tal que, diferentemente do que ocorre em outras hipóteses de dissonância constitucional, nesse caso, o legislador tipifica a conduta como crime. Como também o faz quando o atentado baseado em violência se faz contra o regime democrático em si”.

A sustentação de Gonet, elogiada por juristas, traz esperanças a quem não se esqueceu dos traumas que a primeira anistia sedimentou em companheiros que vivenciaram um dos períodos mais pavorosos da história do Brasil: a ditadura militar de 1964. Militantes como Sandra Mayrink Veiga, uma das vozes de resistência ainda vivas e combativas no Sul Fluminense, sabem bem por que crimes desse tipo não podem ficar impunes. “Nós que sofremos diretamente com a ditadura não queremos ficar rememorando tudo, até porque é muito doloroso, MAS SIM QUEREMOS DENUNCIAR A IMPUNIDADE DOS ASSASSINOS E T0RTURADORES. Continuamos nessa luta pelo julgamento dos assassinos durante a ditadura POIS A HISTÓRIA NOS ENSINA, MAS MUITOS NÃO APRENDEM e continuam articulando e promovendo golpes contra o Estado de Direito. Queremos que os responsáveis por todas essas barbáries sejam punidos para, assim, finalmente, podermos virar esta página. Basta de golpes. O Brasil já conta com 11 golpes e/ou tentativas de golpes”, disparou.

Sandra, uma conceituada jornalista ajudou a organizar a antologia “60 anos do golpe: gerações em luta", uma coletânea de textos de sessenta autores que vivenciaram e resistiram à ditadura militar no Brasil,  que deixou um rastro de dor, com mais de 600 mortos e desaparecidos. Com 334 páginas, a obra apresenta uma diversidade de artigos escritos por ex-combatentes que enfrentaram o golpe e a ditadura, ex-integrantes da Comissão Nacional da Verdade, participantes do MG68, intelectuais, acadêmicos e representantes de diferentes segmentos da sociedade, incluindo Sandra. 



Para Sandra, os parlamentares e as pessoas que apoiam a anistia dos golpistas o fazem por diferentes razões. A primeira delas é liberar Bolsonaro para ser candidato à presidência em 2026 “Ele ainda tem bastante força popular e vários parlamentares, prefeitos e vereadores pelo país afora acham que seria interessante remar a favor dessa maré”.

Sandra defende ainda que os viúvos da ditadura não se contentaram com os espólios e o cenário de terra arrasada deixado pelo anos de chumbo. Querem mais. “Temos uma quadrilha organizada no Congresso e de costas para as necessidades dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil. Eles nunca aceitaram a redemocratização e estão sempre querendo fazer parte diretamente do poder. A direita pode dar golpe através do que ficou conhecido como Lawfare, ou seja, uma forma de guerra através do direito, do judiciário como foi a chamada Lava Jato. O próprio vice-presidente do Bolsonaro, o general Hamilton Mourão, declarou isso em uma palestra no Sul. Só que na tentativa de golpe do 8 de janeiro eles por incapacidade estavam contando ainda com as Forças Armadas, principalmente o Exército e a Marinha”, pontuou a militante.

Lançamento do livro na livraria Gregas & Troianas em Resende - abril de 2024

Sandra segue fazendo questão de reafirmar que a anistia representou uma injustiça para o país e espera que não se repita no caso Bolsonaro e dos demais envolvidos na trama, principalmente os que compõem o alto escalão das forças armadas. “A falta de uma JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO no Brasil que retirasse todo o entulho da Ditadura tais como a Lei de Segurança Nacional que foi reutilizada pelo governo Bolsonaro contra seus opositores; a falta de punição de todos que violaram barbaramente os direitos humanos com tortura e assassinato bem como todos os mandantes, permitiu que depois da abertura setores da extrema direita se reorganizassem já que nunca aceitaram a redemocratização. Começaram a trabalhar para uma estratégia de longo prazo”, condenou Sandra.

Mas a jornalista vislumbra um horizonte de possibilidades à democracia. “Eu estou otimista com relação a isso. Acho que desde o ano passado vislumbramos bons resultados com os debates que tiveram início em abril e percorreram o ano todo pelo país afora sobre os 60 anos do golpe de 64 e as lutas das gerações contra a ditadura e com as denúncias dos horrores que os militares, com apoio de empresários, da igreja católica, da TV e Jornal Globo e outros cometeram. Inclusive, quem se interessar por este tema recomento o livro “60 anos do golpe de 64: gerações em luta” que ajudei a organizar e que está disponível gratuitamente no site “dowbor.org”.

Por Vinícius de Oliveira

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

ENTREVISTA EXPLOSIVA COM DONA IVA RESENDE

 Por Alvaro Britto*

Estou aqui porque eu gosto da terra e de plantar. A nossa luta é para que essa comida saudável chegue na mesa do povo brasileiro!”



No assentamento Irmã Dorothy


Essa fala é de Iva Resende de Oliveira, a Dona Iva, 76 anos, matriarca do Assentamento da Reforma Agrária Irmã Dorothy, localizado em Quatis, no Sul Fluminense, entrevistada pelo Pavio Curto em dois momentos de 2024. Uma curta edição já foi divulgada nas redes sociais do Pavio em novembro.

Ela nasceu em 05/10/1948 na cidade de Resende Costa, em Minas Gerais. Está no Irmã Dorothy desde 2012 e antes ficou dois anos no acampamento Mariana Crioula, em Valença.


                     Dona Iva sendo entrevistada


Dona Iva contou a história dos 20 anos de luta junto com as demais famílias assentadas, recitou versos, entoou cânticos da reforma agrária e até anunciou o seu casamento para breve.

A minha luta é essa, é tão gostoso você colher uma verdura, uma fruta, sabendo que ela está sem veneno. Nós aqui não usamos nada que prejudique a saúde”, afirmou emocionada Dona Iva.


Casamento

Eu vou casar no religioso aqui no Irmã Dorothy em 2025. No civil não teve nada, mas o religioso irá abalar Paris! Quero mostrar um pouco de mim, o que gosto de fazer, vou chegar vestida de noiva numa charrete”, prometeu a noiva, que foi presidente da Associação de Agricultoras e Agricultores do Assentamento Irmã Dorothy


Dona Iva no brechó do assentamento


Ela revelou que o noivo, Luiz Paulo da Costa, “era um rapaz solteiro que não, sabia ler, não conhecia o pai e a mãe, não sabe nem de que lado veio. Agora, conversamos muito e ele começou a estudar. Tá até animado e diz que vai ser advogado. Eu falei: “Você pode ser mesmo, mete a cara!” Eu também prometi ajudar ele nos deveres da escola assim que voltar a enxergar bem.”

Dona Iva está se recuperando de uma cirurgia nos olhos e está enxergando muito pouco. “Luiz não tem vício nenhum, não bebe, não fuma, não joga. Ele cuida muito de mim. Depois da cirurgia em novembro, nunca mais eu fiz comida e ele cozinha muito bem. Eu sou enjoada. Como qualquer coisa mas tem que ser tudo muito bem feitinho, limpinho”, elogiou ela.




Irmã Dorothy

Em 1997, a Fazenda da Pedra, onde está localizado o Assentamento Irmã Dorothy, foi identificada como imóvel que não cumpria com a função social da propriedade. Em 2004, o INCRA iniciou o processo para criação do assentamento e, em 2005, famílias organizadas pelo MST e pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais e Barra Mansa ocuparam o local, reivindicando a reforma agrária.

Decreto assinado pelo presidente Lula no seu primeiro mandato autorizou o processo judicial de desapropriação em 19 de outubro de 2006. No dia 15 de outubro de 2014, foi determinada pela Justiça a imissão na posse do imóvel pelo INCRA e em 2015, foi finalmente criado o Assentamento Irmã Dorothy. O seu nome homenageia a missionária Dorothy Stang, assassinada em 12 de fevereiro de 2005 a mando de latifundiários em Anapu, no Pará. 

                      Irmã Dorothy Stang


Atualmente a principal luta é a regularização das famílias pelo Incra, com a definição daquelas que efetivamente serão assentadas no Irmã Dorothy. “Aqui as coisas são conquistadas com muita luta de todos. Estamos esperançosos que o nosso direito será respeitado e confiamos na atual gestão do Incra”, disse Dona Iva.

Outra luta da comunidade é a conclusão da construção do galpão que irá acolher várias atividades – como feira de produtos agrícolas e artesanato, eventos culturais, cursos de formação - e sediar a Associação de Agricultoras e Agricultores do Assentamento Irmã Dorothy.



   Dona Iva e seu Luiz fazendo o cadastro no INCRA.


* Jornalista

Fotos: Alvaro Britto e arquivo do MST




quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Levante: 12 anos de luta organizando a juventude

 

Foto 1: Primeira reunião de 2024 da célula de Resende, Parque das Águas, janeiro de 2024 

Alvaro Britto*

 Em 5 de fevereiro de 2012, 1,2 mil jovens de 17 estados brasileiros, reunidos em Santa Cruz do Sul (RS), decidiram criar o Levante Popular da Juventude, uma organização de militantes de todo o país que atuam na luta de massas em busca de transformações estruturais na sociedade.

A data marcou o encerramento do I Acampamento Nacional do movimento, que em 2023, às vésperas do seu 12º aniversário, realizou o seu IV Acampamento Nacional em Brasília (DF).

Coerente com seu compromisso político e linha editorial de fortalecer e abrir espaço para os movimentos populares que lutam pela transformação estrutural da sociedade, o Pavio Curto entrevistou no final de janeiro lideranças que estão reorganizando o Levante Popular em Resende, no Sul Fluminense. Isso porque o movimento já existiu na cidade entre 2015 e 2018.

Desde 2023, o novo grupo vem realizando várias ações junto à juventude trabalhadora, estudantil, mulheres, negros, LGTQIA+ e periférica, além de participar das lutas mais gerais da população, através da Frente Popular Democrática.

A entrevista aconteceu no Parque as Águas, antes da primeira reunião da célula de Resende em 2024. O Pavio te convida a conhecer um pouco das posições políticas, ações e propostas do Levante Popular da Juventude em Resende através da fala de suas lideranças Alessandro Henrique, Ana Souza e Luis Felipe. Bora?!


Alessandro:Resende tem um governo muito fechado à participação popular, pouco transparente, sem diálogo com os movimentos populares” 

Alessandro Henrique tem 19 anos e nasceu em Resende. É estudante de Direito, membro da Federação Nacional dos Estudantes de Direito (FENED) e da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia. Atualmente faz estágio no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. É coordenador do Levante Popular da Juventude em Resende, membro do Conselho Municipal de Saúde e filiado ao Partido dos Trabalhadores, o PT. Luís Felipe tem 18 anos e também nasceu em Resende. É estudante do Ensino Médio no Colégio Estadual Pedro Braile Neto. “Vou completar o curso esse ano!”, afirmou ele. Também é coordenador do Levante Popular da Juventude em Resende. 

Foto 2: Evento da Câmara Municipal de Resende, 2023


Pavio Curto: o que é o Levante Popular da Juventude?

Alessandro: O Levante é um movimento social, é um movimento estudantil e político por si só, tendo em vista que ele agrega tantos setores estudantis, como a gente tem representatividade na UNE, na União Brasília de Estudantes Secundaristas, assim como também atuamos em frentes sociais. Há pouco tempo aconteceram chuvas fortes no Rio e Baixada. O Levante esteve lá presente ajudando, recolhendo e entregando cestas básicas. Então em qualquer causa social o Levante também está dentro. Ele faz parte dessa conjuntura social e estudantil, e às vezes política também, porque o Levante constrói algumas campanhas, como por exemplo da Marina do MST. Então o Levante popular nasceu dessa sede de colocar o Brasil mais popular, o Brasil para a juventude, porque a gente tem visto essa versão elitizada do Brasil. Onde o jovem, o preto, o pobre não conseguem adentrar as camadas sociais e as esferas políticas e institucionais mais altas. Então, assim, conforme diz o nosso nome, é o levante popular da juventude, a gente quer traçar um Brasil popular, a gente tem um projeto popular pro Brasil, isso se encontra no nosso site, a gente tem um estatuto, nossas cartas de princípios. A gente é isso, é um movimento social, estudantil, que tenta fazer um Brasil diferente, mais igualitário e mais popular pra juventude, lutar pela construção do socialismo.

Luís: Gostaria de acrescentar também a nossa participação na luta pela Democracia através da Frente Popular Democrática, e isso é bastante importante para a gente conversar com a galera pra que ela entenda a importância das liberdades democráticas.

Alessandro: O Levante vai ter agora em 2024 o congresso nacional, onde a gente vai refazer nossas cartas de princípios, porque elas se atualizam de quatro em quatro anos, e fica disponível no site pra todo mundo consultar os valores, o que a gente tem como objetivo e tudo mais.

Pavio: Vocês têm uma referência importante no MST. Qual é a relação de vocês com a MST? Uma relação mais orgânica ou uma simpatia?

Alessandro: O Levante e o MST, uma coisa que eu percebi desde o começo, quando entrei no movimento, têm uma relação muito intrínseca. Eu acho que o Levante constrói bastante junto com o MST, muitas causas do MST o Levante constrói. Além das campanhas também, como da Marina aqui no estado do Rio. E assim, eu acho que não tem um motivo específico, tem bastante parceria entre nós, é uma simpatia que a gente tem enquanto movimento popular. A Via Campesina também, o Levante é muito próximo da Via Campesina. É uma proximidade que outros movimentos não têm tanto. Você pega, por exemplo, a UJC, até mesmo a UJS, não têm tanta proximidade com a MST como o Levante. É uma questão de uma ajuda mútua na luta, no que a gente busca. A gente também tem uma luta pela reforma agrária, assim como o MST, e ajudamos a construir esse setor.

Pavio: Como nasceu o Levante em Resende? Nasceu ou foi reconstruído? Porque o Levante já existiu há alguns anos em Resende… duas queridas amigas minhas eram militantes, a Nicole e a Amanda…

Alessandro: Alguns anos atrás, inclusive, eu conheci uma companheira do Levante antigo que tinha em Resende. Ela disse pra mim que o Levante daqui era forte. Tinha bastante atuação, mas acabou. Eu não sabia que houve Levante aqui em Resende. Daí, a gente reconstruiu o Levante aqui a partir da ótica de ter uma força de juventude orgânica e que consiga unificar a luta dos estudantes. Eu, antes de ser do Levante, eu era da Correnteza. É um movimento bem distinto. E eu entrei pro Levante justamente depois de conhecer o movimento, ver sua causa social, não só o academicismo. E aqui em Resende a gente foi tratando tudo de maneira orgânica, a gente teve nossos atos. A gente primeiro foi pro Congresso da UNE, lá em Brasília. Depois fundamos a célula de Resende, começamos a ter nossas reuniões, mais jovens começaram a se interessar. E assim surgiu esse desejo de reconstruir o Levante aqui em Resende. Foi difícil no começo? Foi. Tivemos alguns problemas com alguns companheiros. Mas conseguimos reconstruir o Levante Populado de Juventude aqui. Fizemos nosso ato de fundação, fizemos vários atos, a gente fez várias coisas legais. Fizemos um evento grande lá na Câmara, foi bastante gente, com mais de 40 pessoas. Então assim, a gente surgiu disso, dessa unificação dos problemas dos estudantes. A gente tá na faculdade, mas tem o Luis que tá no ensino médio, a gente tá traçando metas pra poder se posicionar contra o novo ensino médio, que é muito importante. A gente tá tendo parceria com professor do Pedro Braille. Então o Levante surgiu assim, de maneira orgânica, fazendo nossas reuniões e a gente fundou nossas células e agora a gente tá multiplicando as células. Estamos organizando a célula de secundaristas, a célula de universitários e assim dividir mais ainda, ter célula em Quatis. 

Foto 3: Curso com coordenadores de células do Levante – UFRRJ, 2023


Pavio: Quais os principais problemas da juventude em Resende?

Alessandro: Problemas de várias cidades mas que são agravados em Resende. Mobilidade urbana, por exemplo, aqui é uma porcaria. Um exemplo: no Carnaval tem o bloquinho no centro da cidade. Mas como os jovens de periferia vão vir e depois voltar pra casa se não tem ônibus disponível. O novo Ensino Média aparece como problema em todas as reuniões. Falta de cursos profissionalizantes, de emprego para os jovens. Falta de reconhecimento da identidade e orientação sexual. Alguns problemas são universais, mas precisamos buscar soluções na nossa cidade. As politicas públicas de saúde para a população LGBTQIA+, por exemplo, precisam melhorar muito em Resende.

Pavio: Qual a avaliação do novo Ensino Médio?

Luis Felipe: Estamos vivenciando um superproblema nessa questão porque o Enem está igual ao ano passado. A galera que saiu do terceiro ano que se formou ano passado teve todas as matérias completas porque estava no ensino antigo. Nós que estamos no novo temos sérios problemas porque tiraram matérias importantes como química, geografia, história, biologia, filosofia. No lugar delas colocaram itinerários e escolheram blocos formativos, que pra gente não vai ajudar em nada porque só deixaram de disciplina inglês, que não utilizamos tanto, português, matemática e sociologia. O resto tiraram, sumiu, desapareceu por conta desse novo ensino médio. A luta contra o novo ensino médio é uma das nossas pautas prioritárias porque é uma grande dificuldade que a gente está tendo, todos os estudantes, e também os professores que não tiveram preparação suficiente. Eles não têm uma matéria para ser passada para a gente. Eles até ajudam o que podem, mas são cobrados pelas matérias do bloco formativo. E no terceiro ano, pelo que eu vi, tá um absurdo o cronograma da gente, então agora nesse último ano, vamos passar perrengue.


Foto 4: IV Acampamento do Levante, 2023

Pavio: Vocês têm algumas ideias para atuar junto aos diversos segmentos da juventude além dos estudantes, como jovens trabalhadores, mulheres, negros, LBTQIA+ e até os cadetes, por que não? 

Alessandro: Sim, sim. Mesmo com uma célula nova recente, estamos fazendo agora multiplicação de célula. Até então era tudo em uma só. A gente tinha estudante universitário e outros segmentos da juventude, todos na mesmo célula. Estamos fazendo agora esse processo de multiplicação, porque sabemos que a luta que eu tenho lá na Dom Bosco, não é a mesmo que se repete para um estudante do ensino médio, ou para um jovem de periferia, ou para uma mulher. Então, a gente está destacando quadros para atuar nas frentes. Aninha, por exemplo, é nossa referência em mulheres. Esses quadros estão se colocando e pautando as questões de demandas, como, por exemplo, do povo preto, da população LGBTQIA+, das mulheres. Estamos fazendo aos poucos, meio atrasados, porque tivemos problemas que aconteceram no início da célula, como eu disse. A gente está dividindo os setores, destacando os quadros, e pensamos em abranger todo mundo, toda a juventude mesmo.

Pavio: Como vocês se relacionam com o poder público local, como Prefeitura e Câmara?

Alessandro: A gente estava tendo uma relação muito boa com alguns vereadores da Câmara. mas a grande maioria tem um pouco de represália pelo Levante. Eu tentei marcar uma reunião, por exemplo, com uma vereadora. Aí eu falei que estava representando a juventude ela perguntou assim, “ah, identificação, qual o movimento?”. Eu falei, ela nunca mais me respondeu. Fora isso o, a gente está tendo uma relação assim, um pouco conturbada e bem pequena com as instituições. Vale ressaltar que essa relação problemática é também com as instituições de ensino. Mas é uma coisa que a gente já espera. Por estar atuando com os estudantes, por ser de esquerda e por lutar contra o sistema, já esperamos que tenhamos essas represálias. Mas nossa relação com as instituições tá sendo muito pequena. São muito poucos que aderem ao movimento e ajudam. 

Foto 5: Roda de Capoeira no Parque das Águas, 2023


Pavio: Qual a avaliação sobre um ano do governo Lula?

Alessandro: Considero um bom governo, já que em um ano ele conseguiu fazer muitas coisas, e pros estudantes também, como por exemplo o Pé de Meia. Agora o estudante tem uma bolsa que ele pega no final do ensino médio de 9.200, que é um incentivo muito bom pra pessoa terminar os estudos. A gente tem vários outros programas do governo, a questão do custo de vida, que realmente tem caído nos produtos essenciais, isso vemos no mercado. Claro que os preços variam, depende da época, da chuva, do calor excessivo. Não tem como controlar. Mas na época do Bolsonaro o povo tinha que comprar osso. As ações do governo Lula têm sido positivas, na minha opinião, principalmente para a juventude. A gente teve um evento em Brasília que o Lula participou, tirou foto com o pessoal do Levante e tudo. Nossa companheira Aninha chegou a participar de um evento com o Lula. Ela jura que ele fez um coração para ela. Falei: amiga, eu acredito. Mas a minha avaliação do governo Lula é essa. Os programas sociais voltando, bolsa família com mais de 600 reais. São coisas que realmente têm agregado a população mais pobre. Eu vi também a notícia do imposto de renda. Muito justa. E são coisas assim que o governo Lula tem feito. O salário mínimo subiu, agora ele cresce acima da inflação, muito bom. São coisas assim pertinentes. Algumas coisas realmente eu tenho críticas, mas é assim em qualquer governo. A gente tem que ter nossas críticas sempre. Mas eu tenho achado o governo muito positivo. 



Pavio Curto: E o governo municipal, como está?

Alessandro: Resende tem um governo muito fechado à participação popular, pouco transparente, sem diálogo com os movimentos populares. Não temos abertura para políticas sociais como com o governo Lula. Esperamos mudar isso com a eleição municipal deste ano


Pavio Curto: Há alguma orientação do Levante sobre a participação nas eleições, como fez o MST em 2022 e repetindo agora em 2024?

Alessandro: Estamos avaliando de lançar a minha candidatura a vereador com o apoio do Levante. Essa é orientação. Muita conversa, muito diálogo, uma construção coletiva até o lançamento. Resende precisa de uma campanha de um vereador jovem que defenda as pautas da juventude. E contaremos com o apoio dos quadros que ajudamos a eleger, como a Marina do MST, por exemplo. 

Foto 6: Semana Científica no CE Pedro Braile Neto, 2023


Pavio Curto: E para a prefeitura?

Alessandro: Na eleição para o executivo, já decidimos o apoio ao Derik, do PT. O Levante pretende inclusive destacar militantes para montar e executar a campanha. A nível municipal isso já está fechado. A nossa relação na célula de Resende é muito democrática e de muito diálogo e construção coletiva. Temos uma relação muito boa. 


Pavio Curto: Por que o PT?

Alessandro: É o Partido mais forte da região e também o partido do presidente Lula. Pela sua história de lutas, sua ligação com o movimento sindical. Claro que como é um grande partido, tem várias correntes e algumas que não simpatizamos muito. Para lutar contra o sistema e construir uma nova sociedade, precisamos de um partido forte com história, de luta e com participação dos trabalhadores. E quando esteve no governo, realizou várias políticas em benefício do povo pobre do Brasil. Eu por exemplo, só estou na faculdade devido a um programa do governo do PT, o Prouni. 



Foto 7: Aninha no trabalho de base, 2023


Aninha: “Resende é uma cidade conservadora. Não é impossível mudar isso, estamos no caminho para mudar. Eu sou jovem, tenho 20 anos, e eu quero mudança.”


Ana Souza Martins, a Aninha, tem 20 anos, é natural do Paraná e está em Resende há 16 anos. Estudante de Direito, é da coordenação do Levante Popular da Juventude de Resende.

Pavio Curto: Quais os principais problemas das mulheres jovens de Resende?

Ana Souza: Os principais problemas que eu vejo na maioria das cidades pequenas, como Resende, são as limitadas oportunidades educacionais e profissionais. Também a falta de acesso a serviços especializados de saúde, sem contar com os estigmas sociais. Além disso, a pressão social que a gente sofre é muito maior do que os homens, com todas essas expectativas tradicionais, conservadoras, que podem influenciar as nossas escolhas e a nossa liberdade pessoal. Isso gera traumas e necessidade de certas terapias, que não são de fácil acesso na rede pública de saúde. Sem contar na famosa frase que a política é para os homens, dificultando que as mulheres em Resende participem da política. Em todas as cidades pequenas da região a gente tem essa dificuldade, porque elas tendem a serem mais conservadoras. Resende é uma cidade conservadora, então a mulher tende a ter uma dificuldade muito maior do que um homem dentro da política aqui na cidade.

Pavio: O Levante pretende atuar junto às mulheres jovens da cidade?

Ana: Como o próprio nome já diz, Levante Popular da Juventude, o popular diz muito sobre isso. São os LGBTQIA+, são os negros da classe trabalhadora e as mulheres, principalmente. Então, sim, o levante tem propósito de atuar junto às jovens mulheres, inclusive o Levante sempre coloca mulher na coordenação. Mesmo quando existem coordenadores homens, a gente sempre bota uma mulher para falar, sempre nesse intuito de ter uma mulher na frente. Sem o feminismo, não há socialismo, não há revolução, não há mudança, não há política!


Foto 8: IV Acampamento do Levante, 2023

Pavio: Na reunião de janeiro da célula só tinha você de mulher de Resende. Mas nos encontros nacionais do Levante a maioria é de mulheres. Essa dificuldade é um problema específico de Resende? Por quê?

Ana: Volto a repetir que Resende é uma cidade conservadora. Não é impossível mudar isso, estamos no caminho para mudar. Eu sou jovem, tenho 20 anos, e eu quero mudança. Eu não estou aqui para me mostrar, falar, eu estou aqui para mudança. Então, eu vejo que as mulheres passam por um problema aqui em Resende por ser uma cidade pequena. Se numa cidade grande gera polêmica, imagina aqui a mulher ser mulher e não ter atitude de homem. Ou uma mulher que quer fazer parte da política tendo uma atitude que seria aplaudida se fosse um homem fazendo. Então, toda essa polêmica social gera mais calor em Resende por ser uma cidade assim, com a maioria das pessoas de direita, botando essas expectativas conservadoras, com pessoas conservadoras no poder. Então, tem essa dificuldade de ter mulher na política. E eu vejo que é um problema bastante grande em Resende, talvez o principal.


Foto 9: Banquinha do PT-Resende na Feira da Beira Rio, 2023

Pavio: Por que a escolha pela filiação ao PT?

Ana: A escolha pelo PT é não só por eu me identificar com o partido, mas também porque ele é gigante, é a fonte popular democrática, literalmente. É no PT que eu vejo mudança, vejo caminhos, é nele que podemos falar, gritar, correr. É ele que tira o povo da miséria. É o partido do presidente Lula. Eu tô com 20 anos de idade, só por eu ser filiada, só por eu ser do PT, eu já tenho caminhos abertos para a mudança. É o partido que eu vejo mudança mesmo. E tem muita polêmica, claro, porque aquilo que tem muita história tem muita polêmica, isso é indiscutível. E eu vejo a própria classe trabalhadora dentro do partido. Então, eu tô com o PT. Por isso eu escolhi o PT. Eu não preciso falar aqui dos benefícios, mas é onde vejo mudança. O maior significado de mudança é democracia. Mudança e democracia são as palavras que mais caracterizam o PT


Foto 10: Festa de Natal da Frente Popular Democrática de Resende, 2023


* Jornalista do Pavio Curto


terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Organização e funcionamento do Levante Popular da Juventude - Brasil

 

Foto 1: Lula no 3º Acampamento Nacional do Levante – Belo Horizonte (MG), 2016


O Levante Popular da Juventude é uma organização de jovens militantes voltada para a luta de massas em busca da transformação da sociedade. SOMOS A JUVENTUDE DO PROJETO POPULAR, e nos propomos a ser o fermento na massa jovem brasileira. Somos um grupo de jovens que não baixam a cabeça para as injustiças e desigualdades.

 A nossa proposta é organizar a juventude onde quer que ela esteja. Deste modo, nos organizamos a partir de três campos de atuação: 

1) no meio estudantil secundarista e universitário; 

2) nas periferias dos centros urbanos e 

3) nos setores camponeses. 

 

Foto 2: Escracho na casa de torturador em Belo Horizonte (MG), 2014 – Arquivo Levante



Nesta última frente de atuação também articulamos a juventude dos movimentos sociais, em especial da Via Campesina. Portanto, o Levante é composto hoje por jovens exclusivamente do movimento, bem como jovens que constroem outros movimentos sociais que acreditam no projeto popular.

 Nosso principal objetivo é multiplicar grupos de jovens em diferentes territórios e setores sociais, fazendo experiências de organização, agitação e mobilização. Também queremos ir em busca de força motriz da Revolução Brasileira, ou seja, ter inserção social em diferentes categorias do povo que possam vir a levantar-se no novo período, que virá, de ascenso das lutas.

Enxergamos um mundo dividido entre aqueles que exploram e oprimem e aqueles que trabalham e que têm o fruto de seu trabalho roubado. Esse é o sistema capitalista-patriarcal-racista, que cria uma relação de dominação entre culturas e povos, destrói o meio ambiente, oprime e explora as mulheres, assassina a juventude negra, silencia gays e lésbicas e tolhe, cotidianamente, todos os nossos sonhos.

 

Foto 3: Escracho na Rede Globo de TV – Rio de Janeiro (RJ), 2017 – Arquivo Levante


Entendemos que só com o povo unido, metendo a mão junto, é possível construir o novo mundo que sonhamos. Para isso é preciso apresentar um projeto de nação diferente, que derrube o projeto das classes dominantes onde uma pequena parte da população explora e domina a maior parte.

A construção do Projeto Popular para o Brasil nada mais é do que a conquista das reivindicações históricas que sempre nos foram negadas pelos poderosos de nosso país, como educação, saúde, transporte, cultura, esporte e lazer que sejam realmente públicos e de qualidade bem como o trabalho decente que possa dar ao jovem a oportunidade de ter uma vida digna. A solução de tais problemas, que atingem a grande maioria da população, só virá a partir da reorganização radical da nossa sociedade, ou seja, devemos fazer uma revolução.

Nosso movimento se baseia num tripé:

1. Organização (acúmulo de forças);

2. Formação (práxis* transformadora);

3. Lutas (atacar o sistema).

*Práxis = teoria + prática

 

Foto 4: Escracho na casa de Temer – São Paulo (SP), 2016 – Arquivo Levante


O Levante organiza a juventude para fazer denúncias à sociedade por meio de ações de Agitação e Propaganda (agitprop), ou seja, várias técnicas de comunicação e expressão da juventude com o povo, como músicas, grafismo (graffite), dança, teatro, fanzines, faixas, adesivos, murais, gritos de luta, etc.

O conceito clássico de movimento social se relaciona à existência de uma ou mais bandeiras de luta que unifiquem os sujeitos envolvidos, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por exemplo, lutam pela reforma agrária popular, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) lutam contra a forma injusta de construção das hidrelétricas, etc., ou seja, faz parte do grupo quem se identifica com sua pauta reivindicatória e se engaja por essas conquistas. O diferencial do Levante é que não elegemos bandeiras prioritárias, mas nos colocamos ao lado das mobilizações que reivindicam melhores condições de vida para a juventude brasileira. Num contexto onde falta quase tudo na vida cotidiana do jovem, nosso método é mostrar que sem a organização coletiva e luta nenhuma conquista verdadeira é possível.


 
Foto 5: Escrachos nas casas de torturadores – vários estados, 2012 – Brasil de Fato


A perspectiva que o Levante oferece é a possibilidade de estar organizado/a coletivamente para viver e para lutar. Fora da organização as ações isoladas de um indivíduo, por mais justas que sejam, não tem sucesso. Portanto, o que o Levante possibilita às pessoas é o reconhecimento da sua condição de sujeitos e a construção de possibilidades para que estes recuperem a sua capacidade de intervenção política.

Entre em contato com o Levante sua cidade. O importante é estarmos sempre em movimento, organizando a juventude do povo brasileiro, acumulando forças para a construção do Projeto Popular.

 

“Se eles não nos deixam sonhar,

não os deixaremos dormir."

 

Somos o Levante Popular da Juventude!

 

 

Foto 6: Escracho na casa de Bolsonaro – Rio de Janeiro (RJ), 2016 – Arquivo Levante



Fonte: https://levantepopulardajuventudern.blogspot.com/





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